sábado, 23 de junho de 2012

Sementes Negras

Não se sabe ao certo quem descobriu a primeira pedrinha de ouro. Corria algum dia entre 1693 e 1698. Provavelmente a expedição era comandada por Duarte Lopes. Naqueles idos bandeirantes serpenteavam as montanhas de Minas em busca da lendária Serra de Sabarabuçu, relatada pelos índios. Eram homens rudes, pois as adversidades assim exigiam, mas não perdiam a sensibilidade para reconhecer o fausto. Tanto é assim que nosso anônimo descobridor decerto ficou curioso com as pedrinhas escuras encontradas, enquanto escarafunchava o rio Tripuí (água veloz, em tupi). Ouro negro, eclipse de um sol de mais puro quilate, encoberto por uma camada fina de óxido de ferro.


A amostra chegou ao Rio de Janeiro, aos olhos do governador, que já havia recebido outras anteriores das minas de Itaverava. Constatado seu valor deu-se início à corrida. A fábula povoou a imaginação de aventureiros, que se introduziram nas matas num sobe e desce em busca de uma referência para a glória, um pico chamado Ita-corumi (pedra-menino), hoje Itacolomi. Aos seus pés estavam as tão sonhadas minas.
Bandeira de Antônio Dias em 1698: a primeira a chegar. A fundação de um primitivo arraial se deu no morro de São João, onde também foi celebrada a primeira missa pelo padre João de Faria Fialho. Um grupo relativamente pequeno, que depois se multiplicaria aos milhares. Trinta anos depois a cidade contaria perto de 40 mil pessoas, a maior aglomeração de toda a América Latina. Quarenta mil interesses diferentes... E o ouro, apesar de muito, não era suficiente para alimentar a ambição. Começam os confrontos.












Entre 1707 e 1709 ocorreu o primeiro grande conflito, envolvendo essencialmente paulistas e portugueses: a Guerra dos Emboabas. Ambos defendiam terem direitos legítimos sobre o eldorado, reivindicavam a concessão de terras e minas. Ainda em 1709 seria criada a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, tendo Mariana como capital. Dois anos mais tarde os núcleos de Ouro Preto, Antônio Dias, Ouro Podre e Padre Faria foram elevados à categoria de vila. Nascia a Vila Rica de Albuquerque



Enquanto no litoral a sociedade colonial permanecia engessada em sua estrutura fechada, em Minas nascia um caos social que se movimentava efervescentemente. Ambição era a locomotiva, o ouro o combustível. Ascensão social, embora difícil, era possível: bastava uma bateada feliz e muita astúcia. Mercadores, artesãos, engenheiros, advogados, clero, nobres, médicos, poetas, serviçais... O ecletismo se firmava, gerando uma nova consciência, um espírito libertino, capaz de caminhar com os próprios pés. Não foi uma tarefa fácil. Que o digam Felipe dos Santos e os Inconfidentes (ler "Sonho de Liberdade").
Minas crescia e em 1720 tornou-se uma capitania autônoma, sendo a capital transferida para Vila Rica. Encontrava-se ouro como em nenhum outro lugar, fazendo as lendas do Rei Salomão parecerem ingênuos contos infantis. A festa para celebrar o translado do Santíssimo Sacramento (1733), da igreja do Rosário para a matriz do Pilar, marcou esta época. Cronistas relatam a pompa das vestimentas e artefatos, repletos de ouro e pedras preciosas.

O fausto durou até 1750. A partir daí o metal amarelo começou a escassear. A Coroa intensifica a fiscalização, combatendo o contrabando (muito grande), e força os mineradores a garantirem as cotas estabelecidas de impostos. A opressão culminou com a Inconfidência Mineira, movimento rechaçado duramente por Portugal. Minas e o Brasil não seriam mais os mesmos.
Vila Rica virou Imperial Cidade de Ouro Preto em 1823 e permaneceu como capital da Província de Minas Gerais até 1897, ano da inauguração de Belo Horizonte. Os anos setecentos se foram, mas legaram um futuro que hoje nos presenteia com uma das histórias mais interessantes da saga humana.

e o peso da opressão...
Apure os ouvidos ao andar pelas ruas de Ouro Preto. Sem muito esforço e alguma imaginação é possível ouvir os sussurros conspiratórios, os ideais subversivos, as intrigas palacianas... Os paralelepípedos cobrem um chão sagrado, abençoado pela história. E onde há história há interesses dicotômicos, que se chocaram violentamente pelas ruas de Vila Rica.
Felipe dos Santos e Pascoal Guimarães foram os primeiros a enfrentarem a autoridade da Coroa. Eram mineradores e se revoltaram contra a instalação das Casas de Fundição e a cobrança de 20% de todo ouro recolhido (chamado Quinto). Detinham certa influência e mobilizaram militares, mineradores, clero e parte do povo. A Sedição de Vila Rica, como ficou conhecida a revolta, foi duramente reprimida. Pascoal foi condenado e teve sua propriedade incendiada. A pena de Felipe dos Santos foi mais severa: enforcamento. Outros estudiosos alegam que seu corpo foi amarrado a cavalos e arrastado pelas ruas, para depois ser esquartejado. O horror gerou um nó na garganta que mais tarde ganharia a força de um grito de liberdade.
A Coroa não soube dosar a medida de sua autoridade. é certo que não podiam ser complacentes, uma vez que deveriam perpetuar o controle de Portugal sobre a colônia rica e distante milhares de quilômetros. Exerciam um controle sobre homens rudes, talhados pelas crueldades recíprocas, ambições desmedidas e aspereza de um lugar belo mas hostil. Também havia aqueles que não queriam pagar imposto algum e se aproveitavam da situação para conquistar a simpatia da sociedade. Vila Rica não teve infância. Cresceu rápido demais. A Coroa sabia disso: parecia prever a efemeridade de seu poder. Era preciso ganhar o máximo em menos tempo possível.
Os becos estreitos testemunharam inconfidências

Neste local, na rua São José, residia Tiradentes. Por ordem da Coroa a casa foi demolida, o terreno salgado e nele levantado um padrão da infâmia.
Casa de álvares Maciel, onde se reuniam os inconfidentesO ouro vazava por todas as frestas. O contrabando faz deduzir, com certeza quase absoluta, que muito mais ouro foi retirado do que consta nos registros oficiais. Muitos esconderam na fé o resultado do ardil. Igrejas com altares suntuosos, santos do pau-oco; tudo era permitido aos que escondiam seus ganhos. Não demorou para que as minas demonstrassem exaustão. Na contramão do fato, a nobreza portuguesa aumentou os impostos, garantindo os lucros dos tempos de opulência. Contestavam o declínio alegando o aumento constante no número de mineradores e dos recursos cada vez maiores empregados na atividade. Não convenceram. Cresceu o sentimento de insatisfação.
Casa de Cláudio Manuel da Costa

Tiradentes esquartejado - quadro de Pedro Américo (Museu Mariano Procópio - Juiz de Fora MG)
Por volta de 1783 a produção já tinha caído consideravelmente e continuava a cair. O Iluminismo e outros pensamentos europeus ecoaram na mente dos formadores de opinião. Poetas, juristas, militares, padres e até setores do poder constituído se envolveram num movimento libertário. Queriam Minas livre de Portugal, queriam uma universidade, queriam indústrias... A gota d'água era a Derrama, a cobrança acumulada de todos os impostos atrasados, sem levar em conta o esgotamento das minas.
O ápice se deu em 1789, entretanto não chegou a eclodir como o planejado. Houve traições e a denúncia de Joaquim Silvério dos Reis. Pessoas importantes recuaram e negaram envolvimento. Poucos foram condenados e entraram para a história como "inconfidentes", um nome depreciativo. O processo-crime, denominado "Autos da Devassa", foi aberto. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi o único a declarar abertamente participação. Permaneceu preso por três anos, assim como os outros inconfidentes. Também foi o único condenado à morte, sendo enforcado em 1792 e seu corpo esquartejado e espalhado pelos caminhos de Minas. Os demais foram exilados na África.

O poeta Cláudio Manuel da Costa foi encontrado morto na prisão. Declararam que fora suicídio(?). A cabeça de Tiradentes foi exposta em plena Vila Rica. Sumiu misteriosamente e nunca foi encontrada. Seu paradeiro suscita muitas versões, mais um pitada de sabor nas histórias de Ouro Preto. No local onde estivera o poste (atual praça Tiradentes) se encontra hoje um monumento ao Mártir. A estátua em bronze de Tiradentes está de costas para o palácio do governador. Desdenha da opressão do poder. O movimento não foi em vão: o Brasil se tornaria livre três décadas depois. Inconfidente deixou de ser xingamento; 


Ouro Preto não é feita só de histórias douradas. A natureza foi bem generosa e também exigiu sua cota de sacrifício. O ouro, neste aspecto, tem apenas o papel de recheio numa paisagem que revela muito mais riquezas. Belos vales, esplendorosos mirantes, infinitas nascentes. Um paraíso perdido em meio às lendas.

A conquista deste paraíso foi uma empreitada arriscada e difícil. Adentraram pelos rios os primeiros bandeirantes. Homens muitas vezes em farrapos, em meio a um ambiente idílico. Densas florestas, montanhas que descem e tão logo sobem vertiginosamente. Muitas pessoas visitam Ouro Preto e se encantam com a arquitetura e as lendas. Entretanto, para conhecer o sacrifício do descobrimento, é preciso ir além.
Um passeio pelos arredores de Ouro Preto proporciona isso. Cachoeiras - que com certeza aliviaram o cansaço de personagens históricos - se espalham por toda a parte. Mirantes nos dão uma visão ampla da aspereza do desafio. Como puderam aqueles homens toscos saber onde estava exatamente o ouro? Muitas minas são pequenos buracos em fendas completamente ignoradas pelos incautos. é certo que o ouro foi achado primeiro no leito dos rios. O rio das Velhas, um dos mais importantes de Minas - tanto do ponto de vista geográfico quanto histórico - nasce em Ouro Preto. No formoso vale do Tripuí foram encontradas as primeiras amostras do eldorado. Rios, com suas pontes seculares, serpenteiam por todo canto.
Estrada para Lavras Novas

Vista montanhosa - Lavras Novas




Doze distritos compõem o município de Ouro Preto. Muitos foram coadjuvantes e em alguns momentos se tornaram protagonistas da saga dourada. Guardam segredos saborosos e grande parte das belezas naturais da região. Possibilitam entender com era a antiga Vila Rica e vislumbrar o caminho seguido pelos desbravadores. Encontrar cachoeiras, devassar os profundos vales, escalar o cume de montanhas como o Itacolomi (ponto de referência dos viajantes antigos)... Tudo isso é mais que um deleite; é um exercício de história, uma sala de aula a céu aberto. Belezas naturais ou construídas pelas mãos do homem, como as represas de Santa Rita e do Custódio. Se as ruas escondem segredos, também o fazem os leitos dos rios, pois foram lá que começaram os rumores, onde a lenda virou realidade.
Represa do Custódio - Lavras Novas
Represa de Santa Rita

Cachoeira do Campo
Cachoeira dos Prazeres - Lavras Novas
Cachoeira do Macaco Doido - São Bartolomeu
Vista vale Santo Antônio do Salto

GUIA  DE TURISMO HENRIQUE FELIX 


Guia Henrique : (31) 3426 4469
  (31) 9431 6649

Um comentário:

Henrique Guia disse...

Venha conhecer as belezas de Minas gerais, eu monto seu roteiro das cidades históricas da forma como o você preferir.
contatos: 31 34264469 ou 94316649
email: henrique_guia@hotmail.com